segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Bruno e a hipocrisia

Vivemos num país onde a comunicação social é constantemente atacada por ter "falta de isenção". E no que ao futebol diz respeito, perco nas brumas da minha memória os inúmeros episódios de agressões a jornalistas, pedidos de boicote, black-outs, etc. E nem é preciso recuarmos muito no tempo. Ainda no sábado um jornalista da SporTV foi insultado em directo no estádio da Luz. E o octogenário Pinto da Costa meteu um repórter (da Renascença, creio) fora de um conferência de imprensa que estava a dar na rua. Sim, os jornalistas e os orgãos de comunicação social são um alvo fácil da fúria futebolística. Mas só agora é que se lembraram de proclamar que essas atitudes são anti-democráticas. 
A reação dos jornalistas ao boicote do Bruno foi a esperada. Rasgaram as vestes, cerraram fileiras, gritaram por "fascistas!!!". No que toca a classes profissionais que defendem acerrimamente os seus, os jornalistas são dos melhores. Quem ousar dizer algo sobre a falta de isenção de um OCS ou dum jornalista em particular, é logo acusado de atentar contra a liberdade de imprensa. Estranhamente, esta falange de defesa dos jornalistas desmobiliza-se quando na origem dos "atentados à liberdade de imprensa" está outro clube. Portugal é um país muito bonito, temos muita liberdade, democracia e tal, mas quando ousamos beliscar algumas "vacas sagradas", apanhamos uma carga de porrada à moda da velha PIDE. Exprimentem por em causa a isenção dos nossos jornalístas, dos nossos juízes ou dos advogados. Pior do que isto só mesmo meterem-se com o benfica. 
Irrita-me a hipocrisia com que a classe jornalística abordou a história do boicote de Bruno de Carvalho, principalmente quando num passado bem recente pudémos comparar absurdas diferenças de tratamento entre clubes e dirigentes. E irrita-me mais porque transformaram um inofensivo ataque do presidente do Sporting à imprensa num ataque à democracia.
E é um ataque inofensivo porquê? Em primeiro lugar, qualquer adepto de futebol neste país, que tenha um mínimo de bom senso e amor ao seu dinheiro, recusa-se a gastá-lo para comprar um jornal desportivo. Toda a informação que lá vem acaba por ser disponibilizada na internet. Seja nos sítios dos próprios jornais, seja em blogues, o seu conteúdo acaba por ficar ao alcance de qualquer internauta. Eu não compro um jornal desportivo aos anos, não foi preciso vir o Bruno sugerir-me para não o fazer. Mas quem o lê nos cafés e barbearias continuará a lê-lo, pois se calhar é a única forma que tem para confirmar que aquele golo foi mesmo mal anulado. Em segundo lugar, as televisões. Quem preza pela sua integridade intelectual há muito que deixou de ver os chamados "programas de painel desportivo". Não há paciência para Guerras, Rodolfos e Venturas aos gritos. Aquilo é tudo vazio de conteúdo, oco de substância. Não me lembro da última vez que vi um programa desses. E quem os vê, diz-me que é para se rir das palermices que por lá são ditas. Em terceiro, a questão que mais preocupa lampiões e andrades, que acham que estamos "proibídos" de ver outra coisa na televisão que não a Sporting TV. Sugerir, em 2018, que devemos apenas ver um canal de televisão tem tanto sentido como dizer a um adolescente que não beba alcool quando sair à noite ou pedir à nossa filha que se case aos 30 anos ainda virgem. São sugestões que não resultam porque simplesmente estão descabidas de sentido.
Ora, partindo do princípio que Bruno de Carvalho ainda está na plenitude das suas capacidades intelectuais e mentais, porque motivo decidiu ele levar a cabo um ataque à imprensa, que se tornou inofensivo de tão disparatado que foi? Para respondermos a esta pergunta, temos de nos pôr na óptica dos sportinguistas e não dos jornalistas ou dos nossos adeptos rivais. E como sportinguista, o que é que o discurso de Bruno de Carvalho contribuiu? Em primeiro lugar, como já disse, desmascarou a hipocrisia do nosso jornalismo. Bruno de Carvalho limitou-se a dar um pontapé na palmeira para ver a macacada a cair de lá. E cairam muitos macacos, alguns bem grandes. Em segundo lugar, militância. Bruno disse que a contrapartida por deixar de postar no Facebook e fugir do espaço mediático passaria por um incremento da militância sportinguista. E sugeriu formas de demonstrar essa militância: não embarcar em campanhas de intoxicação que alguma imprensa, desportiva e não só, teima em nos fazer. A forma como o sugeriu, boicotando tudo e todos, talvez não tenha sido a mais feliz. Mas se há coisa que já deveríamos saber sobre Bruno de Carvalho é que ele é assim. Para nos mostrar onde está a luz, ofusca-nos com o sol. Não há volta a dar com este presidente. Cabe-nos a nós, sportinguistas, perceber onde está a essência das coisas, sem nos debatermos pela espuma do supérfulo e acessório.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A lampionagem e o #FicaBruno: Aquele nervosismo miudinho

Paralelamente à discussão em torno da AG do Sporting de 17FEV, surgiu nas redes sociais um movimento de benfiquistas em apoio de Bruno de Carvalho, identificável pela hashtag #ficabruno. Sem surpresa, o movimento foi lançado pelo blog Nova Geração Benfica, onde um dos seus colaboradores é o inenarrável Rui Gomes da Silva. O ex-ministro já por diversas vezes tentou vender-nos a narrativa de que Bruno de Carvalho na presidência do Sporting é sinónimo de vitórias para o benfica, pelo que entre gracejos e galhofa vai-nos tentando impingir essa ideia. Lembro que Pedro Madeira Rodrigues chegou a usar esse argumento contra Bruno de Carvalho, durante a campanha eleitoral de 2017.
Esta apoio lampiónico à permanência de Bruno de Carvalho deixou-me intrigado, por diversos motivos. O principal é que são precisamente os lampiões quem mais tem atacado o actual presidente do Sporting. Isso é visível na forma como mantém contacto com os adversários de Bruno de Carvalho, patrocinando fugas de informação que visam sempre enxovalhar o seu nome na praça pública. Noutro plano, mas tão ou mais importante do que o primeiro, basta ouvir o que dizem do nosso presidente os lampiões nos cafés, transportes públicos, televisões, filas de supermercado, etc. Ele é o coreano, o trinca-bolotas, o ditador, entre outros epítetos de igual calibre. Sobram alguns benfiquistas, como Ricardo Araújo Pereira, que entre as névoas da rivalidade consegue manter a lucidez e vislumbra no presidente sportinguista algumas virtudes.
Se o geral da lampionagem detesta Bruno de Carvalho e envereda naquele discurso fácil de que é ele quem está a estragar o bom futebol português, então porque motivo um "senador" benfiquista como é Rui Gomes da Silva, patrocinado pelo blog NGB, arrasta outros lampiões que acham que afinal Bruno de Carvalho até serve os seus interesses? Olhando assim de alto para o panorama desportivo português, diria que esta graçola do ex-vice-presidente encarnado lembra aqueles momentos de nervosismo miúdo, onde para disfarçarmos uma situação embaraçante ou um temor iminente, soltamos risinhos nervosos para passarmos uma ideia de situação controlada, quando na verdade sabemos que caminhamos para a tragédia. Senão, vejamos.
No panorama do futebol sénior, efectivamente a coisa tem corrido bem ao benfica. Conquistaram o inédito tetra mas esses campeonatos conquistados estiveram longe de ser passeios, como aconteceu com o porto no final do século passado, quando foram pentacampeões. Todos os campeonatos foram conquistados nas últimas jornadas, o que contrasta com a ideia de "domínio" avassalador. Mas mais padre, menos voucher, podemos dizer que no futebol sénior tem dominado nos últimos anos.
O panorama muda de figura quando analisamos as camadas jovens de futebol ou as modalidades mais importantes depois do futebol. Nas camadas jovens, verificamos que nos juniores os lampiões não são campeões há 5 anos, enquanto o Sporting é o actual campeão nacional. Nos últimos 5 anos, o porto conquistou dois campeonatos e o braga um. Em juvenis somos bicampeões nacionais, enquanto o benfica não ganha a prova desde 2015. Em iniciados, os lampiões são bicampeõs nacionais, numa prova onde o campeão alterna desde 2011 entre Sporting e benfica.
Nas modalidades, importa referir que tirando o andebol e futsal, o Sporting começou de trás, face ao benfica. E mesmo aqui não se pode falar bem em "pé de igualdade", pois como é sabido o Sporting não tinha o seu próprio pavilhão, o que lhe conferia uma desvantagem face ao benfica. Mesmo assim, em andebol somos os actuais campeões nacionais, numa prova dominada pelo porto e onde o benfica, o melhor que conquistou nos últimos anos foi uma taça de Portugal. Em futsal somos bicampeões da modalidade. Nos últimos 5 anos conquistamos quatro campeonatos, naquela que é actualmente considerada a mais popular modalidade de pavilhão. No futsal o benfica teve protagonismo até há cerca de seis anos, quando conquistaram o tricampeonato e a final four europeia de clubes. Mas é mais ou menos consensual que actualmente é o Sporting quem domina a modalidade.
Nas outras modalidades de pavilhão onde partimos atrás do benfica, pois as nossas secções profissionais estavam extintas até há pouco tempo, temos assistido a um aproximar sustentado ao nosso rival lisboeta. No hóquei, já nos estávamos a chegar do trio benfica/porto/Oliveirense, que tem dominado a modalidade nos últimos anos. Ainda é cedo para falarmos deste ano, mas as prespectivas são animadoras: estamos em segundo lugar logo atrás do benfica. Veremos como nos aguentamos (e os outros se aguentam) até ao fim. No vóleibol, a coisa correu melhor que no hóquei, pois logo no primeiro ano estamos lançados destacadíssimos na frente para a conquista do campeonato. Nesta modalidade o benfica teria pergaminhos a defender, pois além de campeão nacional, conquistou esse título quatro vezes nos últimos 5 anos.
Em futebol feminino, onde o benfica já prometeu começar a competir na próxima época, o Sporting tem estado a dominar desde que criou a respectiva secção profissional. No basquetebol domina o benfica, aqui sem a presença do Sporting que desisitiu da ideia de reactivar a sua secção profissional. No atletismo, Sporting e benfica tem dividido salomonicamente as suas vitórias em feminino e masculino. Apesar disso, o Sporting conquistou nos últimos dois anos três competições europeias de clubes (europeu feminino de pista e corta-mato feminino e masculino).
Como facilmente se verifica, o Sporting cresceu e muito desde que Bruno de Carvalho chegou ao Sporting. Nas modalidades estamos a dominar o futsal, em andebol podemos passar o porto em hegemonia e podemos fazer o mesmo ao benfica em vólei. No hóquei já nos estamos a posicionar para lutar directamente pelo campeonato nacional. Nas camadas jovens de futebol reconquistámos o nosso espaço, no futebol e atletismo feminino dominamos. Mesmo no atletismo masculino, onde aqui o benfica tem mantido a hegemonia, acabámos de conquistar mais um título europeu, desta feita em corta-mato. Quanto ao futebol sénior profissional, que é sem dúvida o que mais nos interessa, facilmente concluímos que estivémos muito melhor nestes últimos 5 anos do que nos anos anteriores. Ainda não conseguimos o tão almejado título de campeão nacional, mas se olharmos para a evolução de todas as modalidades do clube nestes últimos anos (ao fim e ao cabo, a evolução do Clube como um todo), não é dificil concluir que mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos padre ou fruta, chegaremos lá. E uma vez lá chegados, destituiremos a hegemonia de quem agora está no topo. Daí o nervosismo miúdinho da lampionagem.
Esperem para ver.
#FicaBruno

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Os croquetes bolorentos ou o Campo Grande Football Clube do Séc. XXI

No dia do aniversário de Bruno de Carvalho, assinalado no meio de um turbilhão inusitadamente criado após uma AG de sócios, Rogério Casanova parabenizou o nosso presidente escrevendo o melhor texto que alguma vez se escreveu sobre o actual Sporting. A sua leitura é obrigatória para todos aqueles que esperam estar no dia 17 de fevereiro no pavilhão João Rocha, pois incita-nos a fazer uma introspecção sobre as convicções que temos sobre o nosso presidente e o Sporting, confrontando-as com a realidade possível. 
No que às minhas convicções diz respeito, Casanova adjetiva-as de "messianismo", face à impossibilidade de elas se concretizarem no mundo real. Realmente, ter "lady na mesa, uma louca na cama" é tão improvável como ocorrer aquela velha máxima portuguesa de "fazer sol na eira e chuva no nabal". Confesso que sempre tive uma atracção pelo messianismo, mais ainda pela sua particular manifestação tão portuguesa que é o sebastianismo. As quadras onde Bandarra suspirava pelo salvador Encoberto, as profecias do regresso de Dom Sebastião na manhã de nevoeiro, são histórias de um povo que sofre as amarguras do dia mas acredita num futuro melhor. E se há clube onde os seus adeptos melhor encarnam o "messianismo" sebastiânico ou outro, esse clube realmente só podia ser o Sporting. A crónica do Casanova lançou em mim este interrogação, se valerá a pena suspirar pelo futuro que há de vir, quando o presente está já aí. E por muito que seja o que nos inquieta hoje, muito mais há para saudar. 
Mas não é isso que me trouxe aqui hoje. Hoje vim aqui falar de croquetes. Não daqueles croquetes saborosos e estaladiços que a minha sogra faz, mas de croquetes velhos e bolorentos, que por estes dias nos têm tentado servir. Aqui há tempos, escrevia ainda umas crónicas para o Cherba no "Hoje escreves tu", fiz este texto sobre um comentário que li no camarote leonino. Estávamos em Novembro de 2015, tínhamos uma excelente equipa, íamos à frente na classificação e dias antes havíamos eliminado o benfica para a Taça de Portugal. Perante esse momento, que significava um ponto alto no Sporting dos últimos anos, o comentador "Nação Valente" proferiu um discurso onde se lamentava do estado do Sporting na altura, e concluiu dizendo que pela primeira vez não lhe soubera bem uma vitória do Sporting. Uma vitória sobre o benfica para a taça de Portugal, entenda-se. O tal "Nação Valente" tornou-se entretanto blogger do camarote, quiçá aproveitando a mudez do CityLion...
Mais de dois anos volvidos, descobrimos de repente que afinal há um conjunto de sportinguistas para os quais é mais importante quem gere o clube do que o próprio clube. Ele é a Pipinha do Show Nico, é o outro que foi entrevistado pelo Jogo... nada de importante, pois acredito que não passem de uma ínfima minoria. Mas a desfaçatez com que "sportinguistas" admitem em público preferirem a derrota do seu clube, causa-me arrepios na espinha. É que nada me garante que esta gente não esteja à frente do clube daqui a uns anos... ou meses.
Hoje confirmei também aquilo que já se anunciava há alguns dias, que Pedro Madeira Rodrigues não poderá ir à AG de 17FEV. Mas que exorta os opositores á actual direcção a ir. "Ide vós lá dar a cara e o corpinho às balas, que eu tenho mais que fazer". A atitude de Pedro Madeira Rodrigues não me surpreende, pois afinal esse foi o expediente a que os dirigentes do Sporting mais recorreram. Desde que Dias da Cunha desmascarou o Sistema e até chegar Bruno de Carvalho, as direcções do Sporting simplesmente fugiram sempre que se deparavam com problemas. Fugiram do Apito Dourado, fugiram das escutas onde o nosso Paulinho era enxovalhado, fugiram de fazer respeitar o Sporting nos meandros do futebol nacional, fugiu o Dias da Cunha, fugiu o Soares Franco assim que se desfez do património do clube, fugiu o Betencourt de férias para o Brasil quando a o clube estava a afundar-se, fugiram dos sócios, fugiram das responsabilidades... 
Rogério Casanova escreveu que no passado, à falta de vitórias, o Sporting apegou-se demasiado ao conforto da superioridade moral, pois se não podíamos ser os maiores, ao menos fôssemos os melhores. Concordo em parte. Acredito que a massa adepta encarnou esse espírito de "antes melhores que maiores". Mas não a "classe dirigente" e a "elite" que a rodeava. Esses não o faziam por qualquer tipo de conforto moral. Faziam-no porque simplesmente não queriam saber se ganhávamos, fosse bem ou melhor. Para essa "elite" o Sporting não era um clube desportivo, era uma associação de amigos, onde se comiam uns croquetes maravilhosos e bebiam uns bons whiskeys, e que nas horas vagas iam assistir a uns jogos. Por isso fugiam sempre que o assunto não era resolvido num buffet. Era uma espécie de "Campo Grande Football Clube" do século XXI. 
Ainda não sei o que farei no 17FEV, se cederei à chantagem do nosso presidente ou se ficarei à espera do regresso de Dom Sebastião. Enquanto não chega o "Desejado" na manhã de nevoeiro, nem nos é dado a conhecer o novo prato de croquetes que Bruno de Carvalho anunciou que iria aparecer nos próximos dias, uma coisa sei bem e tenho a certeza: não quero croquetes velhos e a saber a mofo. E não quero que o Sporting se transforme noutro "Campo Grande Football Clube". Com ou sem croquete.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O dilema

Cerca de 10 meses depois de um resultado eleitoral esmagador, eis que o Sporting se depara com um tremendo dilema (mais um).
Não nos basta ter ganho o primeiro troféu oficial da época de futebol, estarmos ainda a disputar todas as outras competições e só dependermos de nós para sermos campeões. Não basta igualmente estarmos na frente em voleibol, futsal, futebol feminino e andebol. Também não basta estarmos a lutar taco-a-taco o campeonato de hóquei em patins, termos ganho duas competições europeias de corta-mato, estarmos na final-four europeia de futsal e continuarmos a disputar a champions de ténis de mesa. Nas vitórias como nas derrotas, é fatal como o destino que o nosso clube tenha de tropeçar naquilo que chamam de "crises". E nem mesmo na melhor época desportiva dos últimos anos (últimas décadas, digo-o eu), com a direcção eleitoralmente mais legitimada de sempre, conseguimos fugir à filha da puta da crise.
Sim, eu lembro-me como estava o Sporting em 2013, quando Bruno de Carvalho chegou à presidência. Sim, eu sei que nestes últimos 5 anos passamos de um clube simpático que "fazia falta ao desporto em Portugal" para uma potência desportiva temida e odiada. Passámos de clube devedor e falido a clube economicamente robusto e sustentável a médio prazo. E sim, eu sei que 90% disso foi conquistado graças à preserverança e carolice de Bruno de Carvalho.
Ontem percorria as redes sociais e os comentários dos "brunistas" iam sempre no mesmo sentido: foi ele que tirou o clube do buraco e lhe deu a aura de potência que tem hoje, logo tudo isso justifica que a 17 de fevereiro lhe passemos o cheque em branco que nos foi exigido. Actualmente parecemos os lampiões, que perante o rol de acusações e suspeitas que envolvem o seu clube, nos respondem sempre com o "Ah, mas o Paulo Pereira Cristovão coiso e tal...". Neste momento, os sportinguistas que apoiam a actual direcção, eu incluído, usam o argumento do "Bruno salvador" para lhe perdoarmos todos os desvaneios, os delírios, as desbocadas, as discussões facebookianas com figuras menores dos clubes rivais ou com jornaleiros e paineleiros desportivos. E até quando o facto de Bruno de Carvalho ter sido o nosso salvador, vai justificar que continuemos a aturar todas as  suas telenovelas mexicanas em torno do Sporting?
A pergunta seria de resposta fácil, se entretanto vissemos surgir alguém no horizonte que pudesse seguir o que de melhor foi feito por esta direcção, sem ter de cair nos mesmos erros. O grande problema da chantagem, da clarificação, do all-in ou lá como quiserem chamar ao que BdC fez ontem, é precisamente esse: se o actual CD cair e não se recandidatar, o que é que virá a seguir?
Este é o dilema por onde a nação sportinguista terá de passar até dia 17. Por um lado temos o Sporting entrincheirado, as guerras do Facebook, o presidente adepto. E o que temos do outro lado? Pedro Madeira Rodrigues? Croquetes e rissóis? O Camarote Leonino? A malta dos outdoors? Os gajos que vão aos almoços com o Vieira? Os dragartos? Os informadores do Pedro Guerra? Mas com tanto sportinguista ilustre por aí, será que não há ninguém que seja capaz de dirigir o nosso clube com a mesma paixão que o actual presidente, mas sem ter de estar constantemente em guerra com o resto do mundo?
Sempre que passa na televisão, eu gosto de ver aqueles documentários a preto e branco sobre os meses que se seguiram á revolução do 25 de Abril, o chamado PREC. Portugal tinha saído de uma ditadura de várias décadas, era um país atrasado e subdesenvolvido, que estava nas mãos de uma pequena elite política, social e financeira. Na altura brilhava um homem chamado Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro do último governo provisório e tio-avô de Bruno de Carvalho. Numa época em que os radicalismos andavam á solta pela rua, Pinheiro de Azevedo ficou para a história como o "Almirante sem medo", tal era o desassombro com que enfrentava os seus adversários políticos, recorrendo inclusivamente a uma linguagem mais grosseira. Entretanto veio o 25 de Novembro, o PREC chegou ao fim e os radicalismos foram varridos da vida política, dando lugar à nossa actual democracia de "tipo ocidental". Apesar da utilidade de Pinheiro de Azevedo, o seu tempo havia terminou com o fim da agitação política. O Sporting neste momento vive num tempo parecido com o PREC, de constante agitação interna. Da mesma forma que Portugal se emancipou e se livrou daquele chavão gonçalvista de "ou estamos com a revolução ou estamos com a reacção", também o Sporting precisa de se emancipar, livrar-se dos croquetes e dos ultra-brunistas, encontrar um caminho mais moderado, que em igual medida respeite o que de bom foi feito nos últimos anos e afaste o que de mau aconteceu.
Estará o Sporting Clube de Portugal pronto a emancipar-se da tutela paternalista dos croquetes e do seu radicalmente oposto brunismo? E estando preparado, haverá alguém, neste momento, no universo sportinguista, que se assuma como uma terceira via e leve o seu projecto em frente? Não existindo essa terceira via, estará Bruno de Carvalho em condições de prometer um Sporting menos bélico, menos entrincheirado, como contra-partida do "respeito e ordem" que pede aos sócios sportinguistas?Será que foi coincidência o Sporting ter atingido a sua melhor fase em diversas modalidades, como há muito não se via, precisamente quando Bruno de Carvalho trabalhava remetido ao silêncio?
Se acham que o que vai estar em discussão a 17 de fevereiro são umas alterações estatutárias e disciplinares seguidas de aclamação ao lider, estão redondamente enganados. O que vai estar mesmo em discussão, nesse dia, é só uma coisa: será que o Sporting Clube de Portugal, em Fevereiro de 2018, ainda precisa de Bruno de Carvalho? Este é o nosso dilema.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

E tudo a ventania levou

Com dois jogos por semana, uma equipa fatigada e com duas peças importantíssimas lesionadas, era expectável que mais jogo, menos jogo, acabássemos por perder pontos. O cinismo "à lá Juventus" que Jorge Jesus se gabou de existir, colidiu de frente contra um Estoril bem organizado e que soube utilizar as suas melhores armas contra nós: lances de bola parada e contra-ataques venenosos. Já contra o porto havia sido o mesmo e na altura todos consideraram ter sido dos piores jogos dos andrades no campeonato. Espanta-me como este Estoril anda por baixo a lutar com Moreirenses e Tondelas pela manutenção. 
Apesar do bom momento do adversário, nada fazia antever que a nossa equipa caísse na Amoreira com aquele estrondo. Até porque não tendo sido um bom jogo da nossa parte, também não foi mau. Criámos oportunidades suficientes para virarmos o resultado, algumas delas pateticamente desperdiçadas. O adiamento do nosso primeiro golo acabou por nos fazer perder o discernimento: aos 70 minutos já abusávamos das jogadas individuais e dos pontapés para a frente. Em contra partida o Estoril aproveitava o adiantamento das nossas linhas defensivas e ia lançando contra-ataques venonosos, só parados por Rui Patrício. Os anedóticos 5 minutos de desconto foram a cereja em cima de um bolo azedo.
Ao contrário do empate em Setúbal, que considerei uma tremenda desgraça, a derrota de ontem deixou-me mais conformado. Como disse, achava inevitável que perderiamos pontos até irmos ao dragão para o campeonato. O meu conformismo assenta numa evidência que é facilmente constatada: o porto passa por uma fase igual à nossa, com a equipa a acusar fadiga e com jogadores importantes lesionados ou em baixo de forma. O benfica, apesar do calendário mais folgado, também está longe de evidenciar um futebol de sonho. A goleada no último jogo é enganadora, pois não reflete as grandes dificuldades que os encarnados sentiram, em especial na segunda parte. Ao contrário do que previam alguns especialistas no final da primeira volta, muito dificilmente alguém chegará este ano aos 80 pontos. E cheira-me que este ano o campeão não vai ser aquele que mais pontos vai conseguir amealhar mas sim o que menos pontos irá perder contra equipas pequenas. E quem não perder os clássicos estará também mais perto de ser campeão. Espero que me tenha feito entender.
Quanto ao nosso desempenho nesta fase do campeonato, não posso deixar de sentir uma leve desilusão. É certo que tivemos de esperar até Fevereiro para sofrermos a primeira derrota interna. Mas nesta fase da época esperava mais. A janela de inverno do mercado não se tem mostrado tão positiva como foi a de verão. Rúben Ribeiro tarda em impor-se no meio campo e Montero está completamente fora de forma. Wendel, de quem se falam maravilhas, não joga. Misic e Lumor são incógnitas. E é triste olharmos para a nossa equipa e vermos que apesar do (mais outro) investimento feito no mercado de inverno, não existem opções válidas para Gelson ou Bas Dost. E continuemos a ter de nos socorrer de jogadores que já deviam ter mudado de ares, como Brian Ruiz e até mesmo Bruno César. Esta é a outra face da moeda JJ, que ano após ano fatalmente se repete: se falha o plano A, não temos plano B. Até há uns dias atrás valia-nos o facto do plano A ser excelente e ir durando para as nossas necessidades. Veremos como será daqui para a frente.
Por fim a "crise directiva". Deixarei o tema da AG interrompida para outro post, mas não posso deixar de assinalar aqui a minha revolta com tudo o que se passou no meu clube desde sábado. Numa altura em que tínhamos o presidente do benfica arguído num processo muito sujo para o seu clube, enquanto no porto começavam a surgir os primeiros sinais de desentendimento entre o treinador e a direcção, eis que o meu clube faz o melhor sabe fazer e desata a dar tiros nos pés. Agora, de repente, os jornaleiros tem dois temas fresquinhos para explorarem sofregamente, enquanto "esquecem" as crises de benfica e porto. O que poderia ser melhor para a nossa CS que uma "crise" directiva do Sporting, acumulada com uma "crise" de resultados e exibições da equipa principal? Conseguirá a "união de aço" dos adeptos ultrapassar mais um episódio de autofagia do nosso clube?
Uma nota final de optimismo. Apesar de tudo acredito que ainda consigamos voltar ao lugar cimeiro da classificação. Acredito que com o regresso de Gelson e Bas Dost conseguiremos voltar às exibições positivas da primeira volta. Vai ser dificil, mas acredito!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Cinismo contra o Sistema e o Estado Lampiânico

Desde que me lembro, os nossos campeonatos costumam ter uma ou outra jornada onde o trio de candidatos perdem todos pontos. E como eu tenho respeitinho pela estatística, temi que esta jornada fosse "a tal". 
Inicialmente vi a coisa mais complicada. O benfica tinha uma deslocação que seria difícil, não fosse o longo historial de "pernas abertas" com que o Belenenses defronta os lampiões. Surpreendentemente, os pasteis deram luta e puseram a nu as fragilidades dos carnidenses. Além de privados de um dos seus melhores jogadores, Krovinovic, tiveram de jogar contra uma equipa que lhes deu luta. E o problema deste benfica é que nem todas as equipas são como o Braga. Não sei o que levou o Belenenses a mudar de postura, se teve que ver com Silas ou com orientações da SAD. Mas que assim a competição fica mais verdadeira, não há a mínima dúvida. E não fosse a arbitragem "apaixonada", nem um ponto levariam.
No dia seguinte, chegou a vez do porto. Ultimamente, vendo os jogos do porto, fico com a sensação de que estão a perder aquela performance que os destacou no incio do campeonato, que basicamente passava por explorar a força e rapidez de Aboubakar e Marega, com a técnica de Brahimi. Com a dupla atacante a acusar falta de pulmão (principalmente Marega) e Brahimi algo apagado, lá se vai o rolo compressor dos andrades. À falta de técnica para chegar à área, usa-se a força. Contra o Moreirense usaram e abusaram do pontapé para a frente, especialmente quando tentaram pressionar nos últimos minutos da partida. De repente lembrei-me dos pressings finais do Sporting aqui há uns anos, que geralmente não passavam também de pontapés para a frente sem nexo algum. A dificuldade em jogar bem e ganhar aos últimos classificados (com o Estoril foi, está a ser, igual) parece sintoma de que ali pelo dragão já não se consegue dar mais do que aquilo.
Chegados a quarta-feira, aparecemos nós. Terceiro jogo em oito dias, contra uma equipa e um treinador que tradicionalmente nos colocam muitas dificuldades. Esperava um Sporting em gestão de esforço e a jogar com o relógio, quiçá aproveitando um "chouriço" ou uma bola parada. Jorge Jesus disse que jogamos à italiana, com a Juventus como modelo. É certo que não demos as veleidades ao Vitória que o benfica deu ao Belenenses. Também é certo que não perdemos o discernimento e passámos o jogo a tentar jogar de bola no pé, em vez do "pontapé para a frente" do porto. Mas andarmos 70 minutos a cansar o adversário para jogarmos nos últimos 20, parece muito arriscado. Especialmente se, como foi contra o Setúbal, o adversário nos marcar um golo. Mas pelas palavras de JJ, os nossos próximos jogos serão muito assim, trocas de bola para cansar o adversário, pouca vertigem atacante e, se não tivermos ainda marcado, cair em cima do adversário nos últimos 20, 30 minutos.
Veremos se o cinismo de JJ chegará para ganhar ao aflito Estoril, tendo em mente que não poderemos repetir a dose de displicência de Setúbal. Os nossos adversários terão provas de esforço teoricamente superiores à nossa. O benfica jogará contra a sua besta negra da época, o Rio Ave. Os vila-condenses são uma equipa organizada e que joga bom futebol, pelo que se adivinham muitas dificuldades para a lampionagem. Se jogarem como jogaram em Belém, a vitória pode-lhes fugir. Quanto ao porto, receberá o Braga, pelo que muito deste jogo passará pela atitude dos bracarenses em campo. Se não jogarem de perna aberta, impedindo Brahimi de ter bola e tapando os buracos para a sua área, podem aspirar a sair com pontos do Dragão. Mas pelo sim, pelo não, o Sistema já começou a pressionar a arbitragem. Primeiro com desenhos patéticos tentando transformar um fora-do-jogo óbvio em algo que vem do planeta Saturno. Depois fazendo aquilo que melhor sabem fazer: ameaçar nos bastidores, primeiro com "reuniões" e depois com "visitas pedagógicas". Enquanto isso Felipe continua a distribuir "perfume" por esses relvados fora e continua-se sem falar dos penaltis que ficaram por marcar contra os portistas. E estejam todos atentos, pois sabendo-se como a nossa arbitragem é susceptível a pressões dos andrades ou lampiões, pressinto que estejam "roubos de igreja" para chegar. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

História com VAR feliz

Certamente que todos nós já fomos ao cinema ver aquele filme romântico, onde no final o protagonista beija a protagonista e o filme acaba como todos felizes, espectadores e personagens.
Geralmente nesse tipo de filmes percebemos aos 5 minutos que no fim os protagonistas ficam juntos e darão o seu beijo da praxe. Mas se fosse assim tão fácil, ele chegar ao pé dela, arrebatar-lhe pela cintura e beijá-la ao fim de 10 minutos, a história acabava logo ali e não tinha piada nenhuma. Por isso é que os filmes românticos são sempre mais complicados. A protagonista já namora com um gajo que é um grande otário, depois conhece o protagonista através da melhor amiga, entretanto a protagonista apaixona-se pelo protagonista mas vê-o a beijar uma loira escaldante que afinal é uma prima afastada que veio à cidade de férias, há umas quantas correrias, uns desencontros, até que por fim o protagonista vai a correr pelo aeroporto fora e à porta do avião berra um "I love you" e beijam-se os dois ao som dos aplausos dos transeuntes que assistem à cena. E com isto passam-se duas horas no cinema, onde ficamos prendidos ao ecran à espera de um final que desde os 5 minutos sabíamos que só poderia ser aquele.
Com o Sporting passa-se também o mesmo. Ontem poderia ter chegado ao pé do Vitória de Setúbal e ter arrumado a questão em 30 minutos, bastando para isso ter posto a equipa que jogou na segunda parte e ter marcado uns 2 ou 3 golos para arrumar logo com a questão. O problema é que com isso acabávamos por mudar de canal aos 30 minutos e cagávamos para o raio da taça, porque nunca gostámos dela e naqueles primeiros 30 minutos não tínhamos feito mais do que a nossa obrigação de clube grande. Mas isso não é o Sporting. Não me lembro de ter ganho uma competição que fosse sem que houvesse uma ponta de dramatismo. Fosse o campeonato de 2002, a final da Taça do Tiuí, ou outras dezenas de troféus ganhos na "garra", tudo teve de ter sangue, suor e lágrimas para ser ganho. Para o bem ou para o mal, isto é o que eu chamo "ganhar à Sporting".
Começámos mal o jogo. O Setúbal entrou melhor e o Paciência filho revela já a mesma apetência que o Paciência pai tinha para nos marcar golos. Um pouco de sorte à mistura, pois podíamos ter sofrido o segundo golo, lá chegámos ao empate num lance que, como não poderia deixar de ser, teve tanto de decisivo como de épico. Um lance claríssimo, que tal como em 2009 iria passar em claro, não tivesse sido a perseverança de alguns defensores da verdade desportiva em implementar em Portugal uma coisa chamada VAR. E aquilo que há 4 anos era visto como uma "patetice" do gordo líder dos carneiros de Alvalade, eis que em 2018 serviu para que mais outra final não ficasse borrada da merda que outros teimam em fazer nos nossos jogos. Era a primeira lição do destino.
Depois vieram os penaltis. Novamente o destino a ensinar-nos que quem espera sempre alcança e de lá veio a sua segunda lição: o jogador do Vitória, que deveria ter sido expulso no lance do penalti, falha o único pontapé da sua equipa. 
E como mandam as regras da vida, não há duas sem três. E eis que a terceira e última lição do destino surge nas mãos de William Carvalho. Ele que sozinho carregou o fardo de falhar o penalti decisivo do europeu de juniores, que falhou ano passado um penalti decisivo na Madeira e que ainda na meia final também havia falhado, acabou por ser o herói improvável de um jogo onde desde o início sabíamos que iria acabar com a vitória do nosso lado.
Apesar desta competição não ter grande interesse para mim nem para a maioria dos sportinguistas, foi tanta a azia que esta vitória despertou em andrades e lampiões, que no final todos nós sentimos um gosto especial quando o nosso capitão Rui Patrício, que num gesto do seu já típico altruísmo, chamou William Carvalho para levantarem uma taça que já devia ser nossa há nove anos.